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Grande Entrevista ao presidente da ARS do Alentejo, José Robalo

Saúde de proximidade visa dar respostas à evolução do estado dos utentes

A proximidade dos cuidados de saúde, tentando chegar às pessoas e evitar que haja grandes deslocações da população são alguns dos objetivos que a Administração Regional de Saúde do Alentejo quer ver implementado.

Autor :Maria Antónia Zacarias

Fonte: Redação

23 Janeiro 2017

Por outro lado, a interligação de cuidados de saúde primários, hospitalares, cuidados continuados, apoio domiciliário deve estar assegurada, de maneira a que os utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) tenham, em contínuo, uma prestação de cuidados que seja adequada às necessidades. Em entrevista exclusiva ao “Diário do Sul”, o presidente da ARS afirmou que a garantia de acesso aos cuidados de saúde deve ser assegurada para todos. O mesmo responsável falou sobre os projetos que têm vindo a ser desenvolvidos, anunciando o que está previsto, entre os quais a construção do novo hospital de Évora que espera estar previsto a funcionar em 2021. José Robalo garante que tudo está a fazer para que a região preste serviços de qualidade, assumindo-se, cada vez mais, como uma região de referência.

Qual é o estado dos cuidados primários no Alentejo?
Não temos pessoas sem ter acesso ao médico de família. Este foi um grande desafio, mas foi conseguido no Alentejo Central. Em Beja, também todos têm médico de família. Já em Portalegre, o mesmo não se passa, pois existe mais de quatro mil doentes sem acompanhamento militar, logo precisamos mais dois. No caso particular do Alentejo litoral, existem 12 mil utentes sem médico de família, conseguiu-se reduzir o número de doentes sem médico de família para menos de metade.

O que tem vindo a ser feito nesta linha da frente da saúde?
No Alentejo Central temos vindo a fazer rastreios e gostaríamos que as pessoas não tivessem que se deslocar para os fazer. São exames de cardiologia, de patologias cardio-respiratórias, de visão e estamos a tentar equipar uma unidade móvel para percorrer as várias localidades no sentido de fazer alguns exames de diagnóstico. Por exemplo, os exames respiratórios só se faziam no Hospital de Évora com uma lista de 400 pessoas, agora com esta valia é possível fazer despistes das doenças pulmonares obstrutivas crónicas. Esta unidade será equipada com outros equipamentos da área da cardiologia. Temos também a funcionar as retinografias que são feitas principalmente aos dentes diabéticos que podem evoluir para a cegueira. Nos últimos três meses fizemos cerca de três mil retinografias no Alentejo Central. Já adquirimos o equipamento para desenvolver o despiste de patologias oculares para quem não tenha possibilidades de recorrer a uma consulta de oftalmologia. Será o técnico que se desloca para fazer os exames e o rastreio de visão também para as crianças.

Isto implica um grande investimento em termos financeiros?
Há um conjunto de investimentos que não têm muito significado em termos financeiros, mas que podem fazer a diferença em termos de saúde preventiva. Exemplo disso é o facto da região Alentejo ser pioneira em diversos rastreios, nomeadamente quanto ao cancro da mama, útero e colon e reto que permitem fazer uma intervenção precoce. Quanto ao cancro da mama, as pessoas são tratadas com a mesma eficácia que noutros hospitais, pois temos profissionais altamente diferenciados que podem acalmar as pessoas em termos de conhecimento. É feito em parceria com a Liga de Luta Contra o Cancro. Quanto ao colo do útero, através do médico de família, é efetuada a recolha do material. Esta é uma área muito importante no momento em que temos em simultâneo a vacinação. Entendo que é preciso usar em simultâneo estas duas armas no sentido de conseguir saber se esta vacina está a resolver-nos o problema. Queremos ter essa garantia.

E quanto ao rastreio do colon e reto?
Este rastreio, que é feito concelho a concelho, visa fazer a pesquisa de sangue nas fezes. Os utentes, a partir dos 50 anos, recebem em casa uma carta com uma pequena cápsula em plástico para fazer a recolha de um pouco de fezes para ver se existe sangue. É entregue nos centros de saúde, mas este rastreio tem tido pouca adesão. Se existir sangue nas fezes terão de fazer uma colonoscopia que poderá fazer a diferença, mostrando se existe ou não uma situação complicada.

No que concerne ao apoio domiciliário que se enquadra também nesta primeira fase dos cuidados?
Estamos, neste momento, com um projeto piloto. Antes tínhamos a unidade de cuidados continuados integrados cujas equipas eram constituídas por poucos elementos, alargámos agora o número de elementos, de competências, ou seja, criámos uma equipa multidisciplinar que faz um plano de cuidados para uma determinada pessoa. Esta equipa trabalha de segunda a domingo, das 8h às 20h, e durante a noite pode haver um contacto telefónico para um dos profissionais que pode dar uma orientação. Este projeto piloto pretende abranger cerca de 30 pessoas, nesta fase inicial. A sinalização pode ser feita pelos médicos de família e por profissionais de hospital. Muitas vezes não temos vagas nos cuidados continuados, assim enquanto a pessoa tem alta hospitalar e até ter possibilidade de ir para uma unidade, pode ser seguida por esta equipa.

Cuidados visam ir ao encontro
das necessidades da população


As unidades de cuidados continuados têm, cada vez mais, importância no sistema de saúde. A região Alentejo tem camas suficientes?
Temos cerca de 900 camas de cuidados continuados em hospitais, as chamadas camas de agudos, e depois temos um número idêntico em termos de unidades de cuidados continuados. Temos cerca de 1800 camas no total. Pretende-se que as pessoas depois de necessitarem de cuidados hospitalares tenham cuidados em função das suas necessidades. Podem existir pessoas que não estiveram em cuidados agudos, mas também que precisam momentaneamente destes cuidados. Isto é, temos quatro tipologias: convalescença, média duração e reabilitação, longa duração e paliativos. Em termos de rácio, o Alentejo está muito próximo daquilo que era o esperado em termos de unidades, tendo em conta a identificação das carências das populações. Estes espaços têm rotação de pessoas para darmos respostas às solicitações que todos os dias temos. De salientar que temos ainda uma unidade de internamento de cuidados continuados para saúde mental no Hospital São João de Deus, uma vez que aqui havia o espaço que necessitávamos e tinha já um historial nesta área.

E em termos de cuidados paliativos?
Dentro da unidade hospitalar vamos ter camas de agudos para paliativos e uma equipa intra hospitalar em cada hospital que pode responder a qualquer necessidade. Além desta, vamos criar também uma equipa distrital de paliativos para que todas as equipas de cuidados continuados integrados, se necessitarem de alguma consultoria ou de algum apoio especializado, possam ser apoiadas por esta equipa distrital de cuidados paliativos na comunidade.

De que é que a região Alentejo precisa nos próximos tempos?
É preciso que haja integração dos cuidados de uma forma coerente, mais pensada, mais alinhada, com mais profissionais de saúde. Gostava que o circuito não se fizesse apenas de Évora para Lisboa, mas fosse eventualmente também de Lisboa para Évora. Évora pode ser um grande centro de referência para algumas áreas específicas da medicina.
Um outro projeto que nós iniciámos na passada terça-feira tem a ver com a necessidade de perceber o que podemos fazer para que novas empresas venham a instalar-se no Alentejo. Entender onde é que as empresas nos podem ajudar a resolver alguns problemas. Por exemplo: há um engenheiro que tem uma oferta de emprego numa empresa em Évora e tem uma mulher enfermeira que quer trazer também. O que acontece, muitas vezes, é que acaba por não vir porque não consegue arranjar emprego para a esposa. A ideia é haver uma conjugação de vontades e ver como será possível resolver o problema internamente entre as várias instituições.

Olhando para toda a região, quais são as prioridades?
Há um conjunto de especialidades que são essenciais existirem nas unidades de Beja, Portalegre e Alentejo Litoral para resolverem 85 por cento das situações clínicas. Vão ter que ter capacidade para fixar os utentes, mas para isso têm que ter diferenciação. Em Elvas fizemos um protocolo com o Coração Delta para criar uma clínica de alta resolução para exames complementares como endoscopias respiratórias e gastrointestinais. Quando saem desta clínica já levam um resultado sobre o que os trouxe a Elvas. Deste modo, o que se pretende é rentabilizar os espaços que temos e dar respostas em outras áreas do território como Castelo Branco e Badajoz. Em Beja é preciso apostar na renovação do equipamento na área de imagiologia, bem como na aquisição de um equipamento de ressonância magnética. Quanto ao litoral alentejano estamos a pensar nalgumas remodelações, essencialmente na urgência que penso que terá sido mal dimensionada para as necessidades. Essa urgência é muito pequenina. É preciso que as pessoas tenham condições porque os doentes precisam e têm direito a isso.

População envelhecida
e novas patologias
mudam estratégia na saúde


Os desafios para os próximos anos são muitos. É para isso que cá estamos e é o que nos motiva para continuar a trabalhar. As populações vão tendo necessidades diferentes e os serviços de saúde têm que se adaptar às necessidades que as pessoas têm porque, de facto, a nossa população está mais envelhecida. Há sítios no norte alentejano que têm 40 por cento de pessoas idosas e isto significa uma transformação completa em termos de saúde. Antes as pessoas tinham mais infeções, hoje têm mais doenças crónicas, duram mais tempo, têm múltiplas doenças. Logo tem que haver por parte da saúde uma adaptação à realidade e que ao que as pessoas têm direito.

Novo hospital de Évora previsto para estar em funcionamento em 2021

O novo hospital de Évora é uma das exigências há muito feita pela região. Em que ponto está o processo?

Tanto o Ministério da Saúde como o Governo assumiram que havia duas prioridades com financiamento, um é o Hospital de Évora e o outro é o Hospital de Todos os Santos em Lisboa. Não é preciso explicar porque é preciso um novo hospital. As pessoas que o utilizam sabem as razões. Uma estrada nacional ao meio, a necessidade de ter médicos de um lado e de outro, o facto dos doentes terem que ser transportados de um edifício para o outro são evidências que não podem ser negadas. Contudo, há que salientar que um novo hospital traz novas responsabilidades.

Em que aspetos?

Em relação à referenciação por parte das outras unidades hospitalares para especialidades que precisam de concentração de doentes. Há poucos doentes para determinadas especialidades e é preciso concentrar os profissionais de saúde. Deste modo, haverá um aumento das competências dentro deste novo hospital. Vamos ter uma resposta mais adequada que visa evitar que os doentes sejam transferidos para Lisboa, pois queremos que este seja um hospital de quase de fim de linha para as localidades da nossa região. No entanto, há que esclarecer, desde já, que haverá especialidades que nunca vamos ter e Évora, como por exemplo a cirurgia cardiotoráxica porque é uma necessidade tão específica e não temos o número suficiente de doentes. Em suma, este aumento de responsabilidade, de aceitar todos os doentes que pertencem a outras unidades faz com que haja necessidade de um hospital com características diferentes daquele que agora temos.

Várias vezes, tem falado na necessidade de estreitar os laços com o ensino superior, tendo-o como parceiro. Continua a pensar assim?

Sem dúvida. A proximidade com a Universidade de Évora e os Politécnicos de Beja e Portalegre são uma mais-valia em termos de informação e de investigação, em particular, na área da telemedicina (consultas quase em casa dos utentes no extremo da nossa leitura), desenvolvimento maior na integração de cuidados em termos de organização de forma a prestar um melhor cuidado de saúde). Imagine-se que há uma linha de comboio com várias estações, as pessoas sairiam na estação que precisassem. Mas era preciso que todos soubessem como é que a linha funcionava. Por fim, nesta relação como ensino superior, ambicionamos o apoio à decisão com sistemas de informação para saber se estamos a tomar a melhor opção naquele momento, isto é, proporcionar algum aconchego em termos técnicos, através das novas tecnologias.

Mas para quando teremos esse novo hospital?

Há uma equipa no Ministério da Saúde que está a definir como financiar o hospital. Já temos o projeto e já inclui as acessibilidades. Há um conjunto de trabalho feito pelo arquiteto Souto Moura que nos garante que está adequado, não havendo necessidade de fazer alterações ao projeto inicial. Agora há que lançar o concurso que está dependente em termos de melhor opção de financiamento. A decisão será para breve penso eu. Até ao final do ano, contamos abrir o concurso para construção, mas sabendo que demora três anos a ficar concluído, caso os prazos sem cumpridos, só em 2021 teremos o novo a funcionar.

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