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Telefonia do Alentejo

“Saúde Mental sem Tabus” na RTA

Quando a ansiedade se torna uma perturbação

Autor :Marina Pardal

Fonte: Redação DS

23 Janeiro 2019

A ansiedade dita “normal” e as perturbações de ansiedade estiveram em destaque na edição de janeiro do programa “Saúde Mental sem Tabus”, emitido na Rádio Telefonia do Alentejo (RTA), em parceria com a MetAlentejo – associação para o bem-estar psicossocial da comunidade.
Estas temáticas foram abordadas por Daniel Guerra, psicólogo e presidente da Direção da MetAlentejo, e por Rodrigo Pires, psicólogo nesta mesma associação.
Daniel Guerra começou por salientar que “a ansiedade é um fenómeno presente no quotidiano de muitas pessoas”.
Explicou que “enquanto problema de saúde, é altamente prevalente e tem fortes implicações no funcionamento, em particular quando estamos na presença de uma perturbação de ansiedade”, lembrando que, “contudo, a ansiedade não é necessariamente um problema de saúde”.
A esse respeito, Rodrigo Pires acrescentou que “a ansiedade é uma resposta emocional e cognitiva que surge por antecipação de uma exigência que sentimos que nos pode de alguma forma ameaçar, procurando preparar-nos para a enfrentar”.
Frisou que “sentimos ansiedade quando um perigo ainda não está presente, mas poderá estar em breve, e preocupamo-nos com o que poderá acontecer, como é o caso de um exame que teremos de fazer no dia seguinte”.
O mesmo psicólogo esclareceu que “a ansiedade pode expressar-se de várias maneiras”, exemplificando que “pode fazer-nos sentir dificuldade em respirar, ter a sensação de dor no peito, sentir o coração muito acelerado, podemos começar a transpirar, ter pensamentos de que vai acontecer alguma coisa muito má que não conseguimos evitar, tremer, ficar nervoso, impaciente ou tenso”.
Relatou que “estas reações são de certo modo automáticas, variam de pessoa para pessoa e não são automaticamente patológicas”, explicitando que “é suposto que algumas destas coisas surjam quando estamos ansiosos porque se assim não fosse, não conseguiríamos preparar-nos para enfrentar perigos ou coisas que nos parecessem ameaçadoras”.
Rodrigo Pires destacou que “a diferença entre uma perturbação de ansiedade e a ansiedade dita 'normal' é a interferência que há com o funcionamento no dia-a-dia e a desproporcionalidade entre aquilo que a maior parte das pessoas sentiria e o que a pessoa está a sentir”.
Exemplificou que “faz sentido que no dia anterior a uma reunião importante eu sinta ansiedade e me preocupe se a reunião vai correr bem, e até possa ter menos apetite ou alguma dificuldade em adormecer”.
No entanto, o psicólogo alertou que “quando esta ansiedade faz com que eu fique de tal forma preocupado que peço para sair mais cedo do trabalho por não estar a aguentar ou faz com que eu sinta tanta dificuldade em respirar que me dirijo às urgências por pensar que estou a ter uma paragem cardiorrespiratória, então talvez já possamos falar de uma perturbação de ansiedade”.
Relativamente a números, revelou que “vários estudos mostram que a prevalência das perturbações de ansiedade está estimada em entre seis a 16 por cento da população portuguesa, pelo que é um dos maiores grupos de perturbações psicológicas no nosso país”.
Para além disso, Rodrigo Pires referiu que “é uma das muitas condições de saúde mental que sofrem com a estigmatização (porque são vistas como sinal de 'fraqueza' ou como falta de força de vontade) e que por essa razão muitos portugueses acabam por levar muitos anos a procurar a ajuda necessária, o que leva ao agravamento das dificuldades e a sofrimento totalmente desnecessário e evitável”.
Por sua vez, Daniel Guerra focou que “independentemente das manifestações que as perturbações de ansiedade podem tomar, todas têm em comum dois aspetos importantes: a presença de ansiedade significativa e com interferência no funcionamento quotidiano e o evitamento das situações que são geradoras de ansiedade”, apontando que “se uma destas condições não estiver presente, dificilmente falamos de uma perturbação de ansiedade”.

Ansiedade pode estar focada
em diferentes situações

Constatou que “o que varia entre as diferentes perturbações de ansiedade é, essencialmente, o foco de ansiedade”.
Segundo este psicólogo, “pode existir uma ansiedade e preocupação desproporcionais em relação a assuntos do quotidiano para os quais a maior parte das pessoas não sente uma ansiedade paralisante (ex. questões financeiras, catástrofes naturais ou pequenos problemas de saúde)”.
Sublinhou que “uma perturbação de ansiedade pode manifestar-se no evitamento de uma situação ou objeto específico (ex. andar de avião, espaços fechados ou um animal em concreto)”, frisando que “as pessoas também podem ter medos não de uma situação concreta, mas de um tipo de local que lhe causa muita ansiedade (ex. centro comercial)”.
Outra situação apontada por Daniel Guerra foi “a de sentir uma ansiedade muito intensa e desproporcional em situações de contacto com outras pessoas por medo de que os outros fiquem com má impressão de si”.
Realçou ainda “as situações onde a ansiedade se liga ao pânico”, exemplificando que “acontecem quando uma pessoa lida com ataques de pânico repetidos e imprevisíveis que a levam a ficar muito preocupada com a possibilidade de que surjam novos ataques”.
No que fiz respeito às causas, Rodrigo Pires recordou que “à semelhança do que já falámos noutros programas sobre saúde mental, não há uma única causa que explique porque é que algumas pessoas têm problemas de ansiedade”.
Precisou que “podemos falar em aspetos biológicos, considerando-se um fator de risco um historial familiar de problemas de ansiedade, pois a carga genética faz com que, em conjunto com o meio da pessoa, esta possa adquirir uma maior sensibilidade à ansiedade”.
O psicólogo assegurou que, “neurologicamente, há também estudos que parecem sugerir que as pessoas que sofrem com problemas de ansiedade terão certas áreas cerebrais associadas à expressão emocional que se ativam mais facilmente, contribuindo assim para que a pessoa seja mais propensa a reagir com ansiedade perante situações que lhe pareçam ameaçadoras”.
Especificou que “depois há também certas características que fazem com que uma pessoa seja mais propícia a ficar ansiosa, além de outros aspetos psicológicos ligados ao desenvolvimento de problemas de ansiedade, como a baixa autoestima, ter problemas de saúde mental ou de abuso de substâncias”.
Rodrigo Pires evidenciou ainda “situações como stress no trabalho ou trabalho instável, choque ou trauma após um evento traumático, a perda de um ente querido ou ser vítima de abuso físico, sexual ou emocional” como causas que podem levar a ter dificuldades em lidar com a ansiedade.
Quanto aos tipos de ajuda que existem para lidar com esta condição, Daniel Guerra referiu que “existem as chamadas estratégias de autocuidado, ou seja, coisas que as pessoas podem fazer para minimizar o impacto da ansiedade ou para fazer com que ela não surja tão frequentemente (ex. exercício físico, meditação ou a prática de exercícios de relaxamento)”.
No entanto reiterou que “é importante perceber que o autocuidado nunca nos poderá libertar de toda a ansiedade, pois devemos sempre recordar-nos que estar ansioso é algo normal e que acontece a todas as pessoas em algum momento das suas vidas”.
A par disso, aconselhou que “é importante que as pessoas recorram aos serviços de saúde (médico de família, psicólogo ou psiquiatra) sempre que sentirem que não estão a conseguir por si só, lidar com a sua ansiedade”.
Neste âmbito, Daniel Guerra focou que “a MetAlentejo realiza acompanhamento psicológico e é um dos vários recursos a que as pessoas podem recorrer se estiverem nesta situação”.
Relativamente ao tipo de acompanhamento que é feito nestas situações, explicou que “pode consistir na ajuda do terapeuta para aprender a identificar quando é que a ansiedade é útil e que comportamentos poderá mudar para que esta se torne mais tolerável”.
Por outro lado, Daniel Guerra salientou que, “num ambiente seguro e controlado, com a ajuda do terapeuta, a pessoa pode fazer uma exposição gradual às situações que lhe causam ansiedade para conseguir aprender a regular melhor o seu estado emocional”.

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