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Telefonia do Alentejo

“Saúde Mental sem Tabus” na RTA

A doença mental representada no cinema

Autor :Marina Pardal

Fonte: Redação DS

17 Junho 2019

Facilmente nos lembramos de um ou outro filme em que alguma doença mental esteja representada. Mas será esse “retrato” fidedigno? Haverá exagero na forma de mostrar as características de determinada doença? Será um contributo para que se aceite a doença mental ou, pelo contrário, mais um passo para perpetuar o estigma?
Estas foram algumas das questões faladas no programa “Saúde Mental sem Tabus”, emitido em março, na Rádio Telefonia do Alentejo (RTA), em parceria com a MetAlentejo – associação para o bem-estar psicossocial da comunidade.
O debate foi protagonizado por Daniel Guerra, psicólogo e presidente da Direção da MetAlentejo, e Rodrigo Pires, também psicólogo nesta mesma associação.
Daniel Guerra lembrou que “as representações sociais das perturbações psicológicas e dos problemas de saúde mental vão para além daquilo que cada pessoa individualmente acredita e são disseminadas, e em parte definidas, pelos media e pela forma como estes problemas são retratados nas artes”.
Constatou que “há uma relação de reciprocidade entre as representações sociais da doença mental e a sua expressão artística”.
O psicólogo explicou que, “por um lado, a forma como a doença mental é retratada nas artes é influenciada pela ideia geral que as pessoas têm sobre a temática, mas, por outro, esse retrato molda a forma como pensamos sobre estes assuntos”.
Esclareceu ainda que, “tendo em conta a grande diversidade de formas e expressões artísticas, dificilmente conseguiríamos abordar todas as representações da doença mental que estão contidas na música, na pintura ou na literatura, por exemplo”.
Como tal, Daniel Guerra referiu que “optámos por centrar-nos no cinema, pois é talvez a forma de expressão artística (a par com a música) que conta com o público mais vasto e que influencia de forma mais evidente a perceção que temos acerca de determinadas temáticas”.
Um dos filmes abordados foi “Uma Mente Brilhante”, no qual é representada “uma das perturbações mentais mais envolta em estereótipos, a esquizofrenia”, relatou o psicólogo.
Salientou que “este filme estreou em 2001 e conta a história de um matemático brilhante, John Nash, vencedor de um Prémio Nobel e que sofreu com esquizofrenia durante quase toda a sua vida adulta”.
Daniel Guerra destacou que “este filme tem como pontos fortes uma representação relativamente adequada da doença, uma vez que não se foca em mitos como a ideia de que as pessoas com esquizofrenia sofrem de personalidade múltipla, ou de que uma pessoa com esta doença é excecionalmente violenta, hostil e incapaz de estabelecer relações significativas”.
Acrescentou que “também há uma representação adequada (tanto quanto sabemos) da forma como a esquizofrenia era tratada nessa altura (décadas de 50, 60 e 70 do século passado) e dos efeitos que esse tratamento podia ter no paciente”.
No entanto, Rodrigo Pires focou que “há algumas particularidades no caso que é representado que podem transmitir uma ideia incorreta sobre esta doença”, exemplificando com “a ligação entre a genialidade intelectual e a esquizofrenia”.
Constatou que “uma das representações sociais que é com frequência perpetuada no cinema é a ideia de que a doença mental está com frequência associada a uma capacidade intelectual ou artística acima da média”.
O psicólogo considerou que, “por um lado, esta ideia sublinha a importância de valorizar a perspetiva e a voz das pessoas que sofrem de doença mental, mas, por outro, pode correr-se o risco de glorificar a doença mental, mais como um traço de personalidade que permite olhar para o mundo de uma forma mais criativa”.
Recordou que, “na maior parte dos casos, a doença mental é uma barreira enorme à criatividade, à concentração, à motivação e à persistência e, ainda que permita a algumas pessoas com doença mental uma sensibilidade particular e com enorme valor, sem a ligação glamorosa com a criatividade que por vezes se quer fazer passar”.
Rodrigo Pires evidenciou depois um outro filme, o “Glass”, que estreou há pouco tempo no cinema e que “surge na sequência de dois filmes anteriores com histórias distintas”.
Explicitou que “um destes filmes é o 'Split', onde é contada a história de três jovens que tentam fugir de um homem com 23 personalidades que os aprisionou num local isolado (será, alegadamente, um homem que sofre de perturbação dissociativa da identidade)”.
Segundo o psicólogo, “decidimos focar-nos particularmente nesta personagem porque a perturbação dissociativa da identidade (chamada de personalidade múltipla) é muitas vezes mencionada no cinema e gera bastantes dúvidas nas pessoas que veem os filmes”.
Relatou que “esta condição é atualmente reconhecida na literatura científica, mas é contestada por outros profissionais de saúde”.
Rodrigo Pires precisou que “há quem defenda que este é um problema de saúde real, mas há outros profissionais que dizem que esta é uma condição muito discutível, resultante de maus diagnósticos ou sugestionabilidade e que na verdade não possuiria muitas diferenças comparativamente a outras perturbações da personalidade que já se conhecem”.
Apontou ainda que “as consequências deste filme devem fazer-nos pensar sobre o impacto que a arte pode ter em comunicar ou mudar uma ideia”, adiantando que, “neste caso, falamos de um exemplo negativo e o filme foi duramente criticado por veicular uma imagem negativa, pois relata a pessoa com problemas de saúde mental como alguém que deve ser temido”.
Passando para um género cinematográfico diferente, Daniel Guerra realçou o “Divertidamente”, um filme de animação que “conta a história da vida mental de uma rapariga de 11 anos, personificada por cinco personagens que representam as emoções básicas que operam na sua mente – Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojo”.
Ressalvou que “o primeiro ponto que gostaríamos de referir como importante é a visão das emoções como experiências com uma função”, lembrando que “nenhuma emoção humana é inerentemente má e que todas elas podem motivar o comportamento adaptativo em certas situações”.
O psicólogo resumiu que “as nossas emoções guiam as nossas perceções do mundo, as nossas memórias e até os nossos conceitos do que é certo ou errado de forma a garantir-nos respostas eficazes para as situações que vivemos”.
Para além disso, referiu que “ter esta consciência das nossas emoções pode ser uma importante competência associada à nossa saúde mental, já que existem vários tipos de problemas de saúde mental que estão associados a dificuldades na regulação emocional”.
Na opinião do presidente da MetAlentejo, “o filme tem sem dúvida algumas representações que do ponto de vista científico não são as mais acertadas, até porque do ponto de vista neurológico as coisas não funcionam exatamente assim”.
No entanto, considerou que “o mais importante neste filme é a forma como é chamada a atenção para a importância das emoções no funcionamento quotidiano e para a necessidade de ir gerindo os acontecimentos usando as emoções como sinais de alerta que nos dão pistas para as ações que devemos tomar, mas também para o papel importante que cada emoção representa, mesmo as que estão associadas a representações mais negativas”.
Por último, Rodrigo Pires analisou o filme “Lucy” que “conta a história de uma mulher que tem contacto com uma substância que potencia as suas capacidades cerebrais e lhe dá poderes sobre-humanos”, opinando que “é um excelente espetáculo de ficção científica sem qualquer fundamentação científica”.
A escolha deste filme prendeu-se “com o facto de na atualidade existir um grande fascínio científico e do senso comum com o cérebro humano”, justificou, afirmando que “um dos mitos que existe é o de só usamos dez por cento do nosso cérebro e que, caso consigamos usar mais, então desbloquearemos potencialidades fascinantes”.
O psicólogo assegurou que “isto é uma ideia errada sobre aquilo que é o nosso comportamento e funcionamento, pois não há qualquer fundamento científico para esta ideia e hoje em dia temos claramente identificadas as funções de várias partes do nosso cérebro”.
Concluiu que “escolhemos falar deste filme para ilustrar como determinadas ideias sem fundamento científico são perpetuadas no cinema, sendo difícil para quem está a ver ter noção disto”.

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