Telefonia do Alentejo

Parceria RTA / MetAlentejo

Problemáticas psicológicas na infância e adolescência

Ansiedade, depressão, ataques de pânico ou perturbação obsessivo-compulsiva foram algumas das doenças faladas no programa “Saúde Mental sem Tabus” ao longo dos mais de cinco anos que já marcam a sua existência.

Autor :Marina Pardal

14 Fevereiro 2020

A maior parte destas questões tem sido abordada tendo como alvo os adultos. No entanto, há problemáticas ligadas à saúde mental que se manifestam nas crianças e jovens, tendo sido esse o tema escolhido para a edição de janeiro de “Saúde Mental sem Tabus”, emitido pela Rádio Telefonia do Alentejo (RTA), em parceria com a MetAlentejo – associação para o bem-estar psicossocial da comunidade.

Este assunto foi comentado pelo presidente da Direção da MetAlentejo, o psicólogo Daniel Guerra, e por Cristina Santos, psicóloga num agrupamento de escolas de Évora e numa clínica privada.
Daniel Guerra começou por referir que “a saúde mental infantil é um 'parente pobre' da saúde mental, já que há ainda menos técnicos”, exemplificando com “a existência de apenas uma pedopsiquiatra em Évora”.
Salientou também que “existem poucas camas de internamento a nível nacional para estas situações”, lamentando que “todos os casos do Alentejo têm de ir para o Hospital da Estefânia”.

O mesmo psicólogo focou que “a MetAlentejo pretende promover e prevenir a saúde mental”, constatando que “intervir na infância é prevenir, pois, muitas vezes, há doenças que tem início na infância”.
A par disso, Daniel Guerra lembrou que “a doença mental na infância tem impacto no desenvolvimento, na família e nas aprendizagens”, dando nota da “importância de distinguir entre comportamento e emoções normais e aquilo que é patológico”.

Cristina Santos deu a conhecer os pedidos que lhe aparecem com mais frequência. “Na escola já há alguns anos que o principal pedido está relacionado com perturbações ou situações de ansiedade, embora o mal estar psicológico, de uma forma geral, seja a base de todos os pedidos”, realçou.
A mesma psicóloga frisou que “quando falamos da prática em clínica privada os pedidos também estão relacionados com questões de ansiedade, mas também existem muitos pedidos relacionados com depressão, problemas de comportamento e questões do neuro desenvolvimento, tais como perturbação do autismo”.

A par disso, evidenciou que “se esquecermos os diagnósticos e pensarmos nos principais problemas apresentados por estas crianças e jovens, podemos observar que têm muitas dificuldades nos relacionamento sociais e em lidar de forma positiva com os mesmos, na resolução de problemas, em lidar com o stress e com o fracasso, baixa tolerância à frustração, problemas de autoestima e, muitas vezes, problemas familiares ou famílias que não sabem ou conseguem apoiá-los”.

De acordo com Cristina Santos, “na maioria das vezes, a Psicologia tem efeitos muito positivos nestas situações, com a utilização de técnicas e estratégias testadas e empiricamente validadas”.
No entanto, alertou que “noutras situações são também necessárias intervenções psiquiátricas, pelo que temos de trabalhar em equipa com pedopsiquiatras ou psiquiatras”, lembrando que “há casos em que a medicação é importante e sem ela os resultados serão mais demorados e difíceis de atingir”.
A mesma psicóloga reiterou que “será sempre necessário o apoio da família, pelo que intervir com crianças e jovens é simultaneamente intervir com as suas famílias”.

Voltando à questão da medicação, especificou que “existem situações em que a medicação é essencial, pois os sintomas têm um impacto tão grande no funcionamento da pessoa que não é possível trabalhar com ela”. Segundo Cristina Santos, “a medicação ajuda a que a sintomatologia diminua por forma a ser possível à pessoa trabalhar em consulta com o psicólogo”, explicitando que, “depois, quando algumas estratégias já foram implementadas será necessário começar a reduzir a medicação e continuar a trabalhar com a pessoa até chegarmos ao ponto em que a medicação já não será necessária”
Apontou que, “muitas vezes, os pais têm receio que os filhos não consigam parar de tomar a medicação e, por isso, não querem que iniciem este processo, mas não será este o objetivo, ou pelo menos não será o meu, certamente”.
Não obstante, mencionou que “cada situação é uma situação e tem sempre de ser avaliada de forma individual”.

Outro aspeto que abordou foi que “há estudos realizados em Portugal, e não só, que comprovam que os números de perturbações psicológicas nas faixas etárias mais jovens estão a aumentar”, sublinhando que “existe também, muitas vezes, uma incapacidade dos pais ou familiares para lidar com a situação”.
A psicóloga esclareceu que “com isto não quero dizer que os pais não têm competências ou têm menos competências agora, mas cada vez mais temos familiares que também têm problemáticas psicológicas, que também têm dificuldades em saber como lidar com as situações sociais ou com a resolução de problemas”.
Evidenciou que “visto as crianças e jovens necessitarem muito de apoio social e familiar para ultrapassar estas situações de maior vulnerabilidade, estes cenário podem dificultar a sua resolução”.
Para Cristina Santos, “a vida diária na sociedade atual pode ter um impacto negativo nestes números, pois as pessoas têm cada vez mais atividades, mais tempo ocupado e mais objetivos, o que será bom por princípio”.

Contudo, recordou que “podem estar a descurar o seu bem-estar, o seu tempo a sós e o seu conhecimento e desenvolvimento pessoal”, assegurando que “isto acontece nos adultos, com um impacto enorme nas crianças, mas também acontece cada vez mais nas crianças e nos adolescentes”.
A psicóloga exemplificou que, “muitas vezes, os jovens relatam que não se conhecem, que não sabem o que querem, que não conhecem na realidade os pais ou familiares mais próximos”, contando que “realizar atividades com os pais e irmãos ou simplesmente ter tempo em família chega inclusivamente a ser um dos objetivos das sessões”.

Deu também como exemplo que “no meio da azáfama diária dificilmente os pais têm tempo para tomar a devida atenção aos filhos e quando percebem que realmente se passa alguma coisa foi porque o professor os chamou à escola para alertar que 'ele não anda bem, devia de ir ao psicólogo'”.
Quanto às formas de prevenir estas situações, Cristina Santos lamentou que, “apesar dos dez anos de existência do Programa Nacional de Saúde Mental, não existe ainda uma estratégia de prevenção das perturbações mentais, continuando a aumentar a prevalência da depressão e ansiedade na população portuguesa”.

Disse ainda que “as escolas, sendo um local de grande concentração de população, principalmente jovem, deveriam ser um dos locais de maior aposta na prevenção do desenvolvimento destas problemáticas, contudo o rácio de psicólogos por aluno continua a ser de 1/1100, aproximadamente”.
Já na reta final, Daniel Guerra revelou que “o programa 'Saúde Mental sem Tabus' vai passar a ser emitido num novo horário, a partir de fevereiro”, adiantando que “pode ser ouvido na RTA à segunda segunda-feira de cada mês, às 16 horas”.

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