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Telefonia do Alentejo

“Saúde Mental sem Tabus” na RTA

Depressão pós-parto: quando uma mãe não sente aquilo que é esperado

Autor :Marina Pardal

Fonte: Redação

21 Fevereiro 2018

Tal como na grande parte das perturbações mentais, o estigma é uma das razões que pode levar a não se falar da depressão pós-parto com mais frequência. No entanto, é uma perturbação que não é tão incomum como se pode pensar. Não só pela sua prevalência, mas também pelo impacto que pode ter na mãe e no bebé, este foi o tema escolhido para a edição de fevereiro de “Saúde Mental sem Tabus”.
Este programa é emitido mensalmente na Rádio Telefonia do Alentejo (RTA), em parceria com a MetAlentejo – associação para o bem-estar psicossocial da comunidade, tendo contado nesta sessão com a presença de Teresa Reis, médica interna de Psiquiatria no Hospital do Espírito Santo de Évora e presidente da MetAlentejo, e com Daniel Guerra, psicólogo clínico na MetAlentejo.
Teresa Reis começou por evidenciar que “a depressão pós-parto, apesar de tecnicamente apenas se diferenciar do diagnóstico de depressão pelo momento em que surge, é uma perturbação pouco falada cujo impacto na mãe e no bebé pode ser bastante significativo”.
Acrescentou que “escolhemos este tema para que seja um bocadinho mais fácil reconhecer quando é que pode ser necessário procurar ajuda profissional e para que se perceba que não é assim tão incomum passar por este tipo de dificuldades após o nascimento de um bebé”.
Por sua vez, Daniel Guerra realçou que “a depressão pós-parto não tem sintomas diferentes de um episódio depressivo regular”, explicando que “é apenas uma forma de especificar que o episódio depressivo teve início nas últimas semanas de gravidez ou nos primeiros meses após o parto”.
Quanto aos sintomas, descreveu que “são os mesmos que estão presentes num episódio depressivo que surge noutra fase da vida: o humor depressivo (sentir uma tristeza profunda e acentuada a maior parte do dia, quase todos os dias); a dificuldade ou incapacidade em sentir prazer na realização de atividades nas quais a pessoa conseguia sentir prazer anteriormente; a insónia ou hipersónia; a redução da energia; a fadiga e o cansaço persistentes; entre outros”.
No entanto, o psicólogo alertou que “enquanto num episódio depressivo noutra altura da vida, as consequências são maioritariamente para a pessoa que dele sofre, na depressão pós-parto há outro ser envolvido (o bebé) que também sofre muito diretamente as consequências das dificuldades que a mãe está a sentir”.
Lembrou ainda que “o período após o nascimento do bebé é socialmente visto como sendo marcado por uma grande alegria e felicidade”, constatando que, “por esse motivo, espera-se que nesta altura a mãe se sinta bem, apesar das dificuldades inerentes ao cuidado de um bebé nos primeiros meses de vida, e seja capaz de desfrutar da experiência da maternidade”.
Segundo Daniel Guerra, “se, inesperadamente, a mãe sente dificuldade em sentir prazer durante estes momentos e se há outras emoções que estão mais presentes, como a tristeza, há um fardo que se adiciona à já difícil tarefa de lidar com a depressão, ou seja, o sentimento de que se está a perder um momento muito importante da própria vida e da vida do bebé e o sentimento de incompetência ou incapacidade de responder adequadamente às necessidades do bebé”.
Focou também as consequências que podem surgir no bebé. “Em primeiro lugar, a depressão pós-parto não tratada, ou com acompanhamento desadequado, pode fazer com a mãe sinta dificuldades em interagir apropriadamente com o bebé, o que pode querer dizer que a mãe tem uma menor capacidade de resposta às solicitações do bebé e ter maior dificuldade em compreendê-lo”.
O psicólogo referiu que “é mais frequente que mães com esta perturbação exibam comportamentos negativos ou desligados em relação ao bebé”.
Como tal, “de uma maneira geral, as consequências negativas que podem advir estão relacionadas com esta dificuldade em estabelecer um vínculo com o bebé, sendo as mais relevantes: um funcionamento cognitivo inferior em comparação com crianças cujas mães não tiveram depressão pós-parto; e um desenvolvimento emocional mais atribulado ou onde existe uma maior dificuldade em cumprir as tarefas de desenvolvimento em relação à gestão e controlo das emoções”, esclareceu.
De acordo com Daniel Guerra, “quando esta perturbação não é tratada e se transforma numa perturbação depressiva persistente, há outras consequências que podem manifestar-se mais tarde”, exemplificando que “uma criança cuja mãe sofreu de depressão pós-parto está em maior risco de vir a manifestar problemas comportamentais e de ter uma perturbação de ansiedade ou do humor”.
Frisou que “há também consequências que não estão diretamente ligadas à saúde mental, como o facto das mães com depressão pós-parto iniciarem e manterem a amamentação menos frequentemente e sentirem mais dificuldades durante a amamentação”.
Contudo, o psicólogo assegurou que “apesar destas potenciais consequências negativas, é muito importante sublinhar que o risco de surgimento de uma destas consequências diminui muito significativamente ou remite quando a depressão pós-parto nas mães remite”.

Quais os tratamentos possíveis?

Relativamente ao tratamento, garantiu que “à semelhança de grande parte das perturbações mentais, estão disponíveis tratamentos farmacológicos e tratamentos psicoterapêuticos, dependendo das características e preferências da pessoa”.
Um dos aspetos que salientou foi que “no tratamento farmacológico é importante deixar claro que o mesmo é seguro, tanto para a mãe, como para o bebé”.
Em relação ao tratamento psicoterapêutico, Daniel Guerra precisou que “este será em muitos aspetos semelhante ao que é usado no tratamento da depressão, com os devidos ajustamos para as necessidades particulares de uma mãe que teve um bebé há pouco tempo”.
Sustentou ainda que “há também outras estratégias importantes que podem ser úteis na recuperação, como o recurso ao suporte social junto de familiares e pessoas significativas, a prática de exercício ou a regulação dos horários de sono, dentro do que é possível tendo em conta as necessidades do bebé”.
Perante todo este cenário, impõe-se perguntar “porque é que se fala tão pouco de depressão pós-parto?”.
Para Teresa Reis, “uma das razões é transversal a grande parte das perturbações mentais, ou seja, ainda existe algum estigma associado a estas doenças que impede que as pessoas reconheçam que são problemas de saúde reais que exigem tratamento e que não são uma manifestação de fraqueza ou de falta de vontade por parte das pessoas que dela sofrem”.
A médica interna de Psiquiatria apontou ainda que “nesta perturbação em particular, acrescem algumas expectativas sociais que podem retirar-lhe visibilidade, o que pode levar a que a mãe sinta que, de alguma forma, há algo de errado com ela por sentir-se desta forma num momento tão importante e que, portanto, a culpa nas dificuldades sentidas é sua”.
Afiançou ainda que “a pessoa pode inclusivamente pensar que será incapaz de ser uma boa mãe ou de cuidar adequadamente do seu filho ou filha, percebendo-se assim que seja difícil reconhecer e comunicar aos outros que se está a passar por estas dificuldades”.
A presidente da MetAlentejo recordou que “a dificuldade em ligar-se ao bebé, em gerir as dificuldades na organização das novas tarefas ou o sentir tristeza depois do nascimento do filho são muitas vistas com estranheza e algumas vezes são dirigidas algumas críticas à mãe por não estar a ser capaz de ajustar-se, o que pode levar também a que não se fale abertamente destas dificuldades, nem se procure apoio”.
No entanto, a mesma especialista garantiu que “a depressão pós-parto não é tão rara como se possa pensar, pois entre dez a 15 por cento das mães passa por estas dificuldades após o nascimento de um filho”.
A culpa excessiva está muitas vezes presente num cenário de depressão pós-parto. Teresa Reis focou que “nestes casos, a mãe pode sentir culpa em relação à incapacidade que se tem em sentir prazer no desempenho das tarefas maternais ou culpa pela dificuldade em sentir um vínculo afetivo forte com o bebé, por exemplo”.
No entanto, explicitou que “esta culpa é frequentemente exagerada, até porque a depressão não é culpa da pessoa que por ela passa e causa efetivamente dificuldades que não significam de todo que não se seja uma boa mãe”.
A mesma médica salientou que “reconhecer que a maternidade não é uma experiência positiva em todos os momentos e inclusivamente podem surgir dúvidas quanto à decisão de ter um filho, são aspetos muito importantes que devemos promover para que as mães que sofrem de depressão pós-parto obtenham a ajuda de que necessitam atempadamente”.
Adiantou que “estes sentimentos podem fazer parte da maternidade e passar por eles não quer dizer que não se seja uma boa mãe ou que não exista uma preocupação profunda com a criança”.
Como tal, a presidente da MetAlentejo considerou que “de alguma forma, tornar estes sentimentos mais normais, falando deles e não recriminando quem os sente, pode simultaneamente ser uma forma de ajudar quem sofre de depressão pós-parto, bem como de evitar que a perturbação se manifeste”.

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