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A FACE OCULTA

LUME DE CHÃO…

No dia seguinte, de manhã, restava a cinza: fria, como o frio da noite alentejana.

Autor :Bravo Nico- artigo de opinião

05 Novembro 2018

Há muito tempo que não acontecia, mas este ano, o frio chegou, mais ou menos
quando era habitual chegar. Veio acompanhado de alguma chuva e embalado naquele vento
norte que nos arrefece o corpo e nos mete dentro das casas mais cedo, ao final da
tarde/princípio da noite.
Com o Outono instalado, a natureza prepara-se para uma longa travessia, até ao
próximo ciclo de renovação, na próxima Primavera. No nosso quintal, deixámos de ver as
formigas, os mosquitos e as vespas – que tanto trabalho nos deram, nos últimos meses –, as
moscas ainda tentam manter a sua vida normal, mas que andam moles a baterem nas coisas, e
as osgas que regressaram às suas casas, bem escondidas, para, nelas, dormirem um longo
sono. As plantas também se retraem e espreitam alguns raios de sol, naqueles dias soalheiros
em que o frio tirou uma folga. A família felina que habita connosco, na nossa casa, também
pouco sai e passa quase todo o tempo à procura de uma boa cama, onde se possa anafar, bem
quente e tranquila. De preferência, à beira de uma braseira ou no sofá, perto da salamandra.
É à noite que o frio aperta e o lume reconforta: lume de chão, lareira ou salamandra
são opções possíveis que nos levam ao encontro da lenha de azinho ou sobro, de preferência.
Recolhida e partida, nos meses mais secos da Primavera ou do Verão, a lenha é arrumada em
sítio seco e utilizada, de forma criteriosa. Os madeiros mais grossos, os paus médios e as feixas
de lenha mais fina, para iniciar as combustões. Uma vez aceso o lume, as casas aquecem-se,
por dentro, e deixam escapar o característico cheiro do Inverno: o cheiro das chaminés em
funcionamento.
Nestes dias, lembramo-nos de muitas coisas que vivemos, sentados à lareira: as torradas feitas com fatias de pão que se colocavam em garfos, viradas e reviradas para as brasas que se ajeitavam e que, acabadas de fazer, se comiam, umas atrás das outras; o café da brasa, que se fazia na velha escloteira e se bebia nas antigas canecas de porcelana; as comidas que se apuravam nas tijelas de fogo, que se alinhavam, no perímetro das brasas e de onde saiam os grãos com bacalhau ou a sopa da panela; a linguiça que se sacrificava no espeto e se assava, lentamente, enquanto se conversava e se preparava a grande falca de pão que a receberia, para nela ficar a gordura que pingava; a conversa que nunca mais acabava, com as palmas das mãos viradas para as labaredas que se iam esfumando, de um lume de que só já restavam as brasas, características da boa lenha do montado.
No dia seguinte, de manhã, restava a cinza: fria, como o frio da noite alentejana. Mas tudo recomeçava, ao final da tarde/princípio da noite…

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