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Telefonia do Alentejo

“Saúde Mental sem Tabus” na RTA

A diferença entre o luto normal e o luto patológico

Autor :Marina Pardal

Fonte: Redação

09 Janeiro 2018

O luto foi o tema escolhido para ser abordado na edição de dezembro de “Saúde Mental sem Tabus”, um programa emitido mensalmente na Rádio Telefonia do Alentejo (RTA), em parceria com a MetAlentejo – associação para o bem-estar psicossocial da comunidade.
O que pode ser considerado como luto normal e como luto patológico foi o foco central do programa.
Esta questão foi debatida com Teresa Reis, médica interna de Psiquiatria no Hospital do Espírito Santo de Évora e presidente da MetAlentejo, e com Daniel Guerra, psicólogo clínico na MetAlentejo.
A contextualização deste tema foi o primeiro ponto salientado por Teresa Reis. “O mês de dezembro é o mês do Natal, sendo habitualmente associado a reuniões familiares e a estarmos mais próximos das pessoas de quem gostamos”, realçou, lembrando que “é também nesta altura que sentimos mais a falta de quem está ausente e, para quem se encontra em processo de luto, verifica-se muitas vezes a agudização do seu sofrimento”.
De acordo com a mesma médica, “considerámos que vir falar de luto faria portanto muito sentido neste mês, fazendo a distinção entre aquilo que são sentimentos de perda normais e associados à saudade de quem sentimos falta e o que são sentimentos e pensamentos que impedem a pessoa de viver a sua vida normalmente e que podem levar à necessidade de apoio médico e psicológico”.
Explicou ainda que “quando há a perda de um ente querido há um processo normal de sofrimento, sendo que este processo de luto passa por várias fases, embora nem todas as pessoas passem por todas estas fases, nem têm necessariamente de ser pela ordem que vou descrever”.
Segundo Teresa Reis, “há a fase do torpor em que as pessoas sentem-se muitas vezes entorpecidas, ainda com dificuldade em integrar na sua rotina diária a perda que sofreu; seguindo-se habitualmente a fase de saudade, em que a perda do ente querido tem maior impacto no dia-a-dia de quem a recorda”.
Acrescentou que “muitas vezes segue-se um período a que chamamos de desorganização emocional e desespero, em que as pessoas muitas vezes questionam-se porque é que teve de ser o seu ente querido a partir, expressando muitas vezes raiva e revolta por essa perda”.
Mencionou que “felizmente, na maioria dos casos segue-se um período de adaptação e recuperação, em que são adotadas novas rotinas e um novo funcionamento que, apesar de muitas vezes incluir a recordação da pessoa que partiu, permite que a vida de quem passa pelo processo de luto siga em frente e encontre novo significado”.
E quando é que podemos dizer que o luto é patológico ou complicado? Essa foi a questão à qual o psicólogo Daniel Guerra tentou responder.
“Em primeiro lugar, é importante perceber que o luto patológico ou complicado não é um diagnóstico clínico que possa ser feito, pelo que existe alguma subjetividade na avaliação desta problemática, o que não quer dizer que não exista o reconhecimento de que há um grande sofrimento associado ao luto patológico”, alertou o psicólogo.
Um dos aspetos que destacou foi o contexto cultural. “Se as pessoas dessa comunidade reagem habitualmente através de comportamentos semelhantes, então não podemos falar de luto patológico”, referiu.

Duração e intensidade
dos sintomas do luto

Daniel Guerra evidenciou também que “o critério mais importante para se falar de luto patológico é o critério da duração”, lembrando que “as pessoas requerem tempos diferentes para conseguir lidar com uma situação de perda e, apesar de poder fazer sentido ajudar a pessoa a ultrapassar uma situação de luto quando o sofrimento e/ou a interferência com o quotidiano são muito grandes, não falamos de luto patológico antes de ter decorrido pelo menos um ano desde a morte da pessoa”.
No entanto, “a duração não é o único fator que devemos considerar quando estamos perante uma situação de luto patológico, tem também de estar presente uma saudade persistente pela pessoa que morreu, de forma intensa; uma tristeza acentuada e dor emocional em resposta à morte da pessoa; preocupação com a pessoa que morreu; ou preocupação com as circunstâncias da morte do ente querido”, indicou.
O psicólogo especificou que “aquilo que alguém sente numa situação de luto patológico apenas difere do que acontece num luto regular no que diz respeito ao grau”, alertando que “se, após um ano, a pessoa não conseguiu ainda retomar a sua vida quotidiana por estar em grande sofrimento, então já começa a fazer sentido pensar numa intervenção do ponto de vista psicológico ou médico”.
Por sua vez, Teresa Reis realçou também “alguns fatores de risco para um luto patológico que envolvem, por exemplo, culpabilidade, nomeadamente a existência de uma relação difícil com a pessoa que morreu, o tipo de morte, a forma como a pessoa em luto esteve (ou não) envolvida na morte do falecido ou antecedentes de perdas difíceis”.
Evidenciou ainda outros sintomas e disse que “ter a sensação de que a vida não tem sentido ou é vazia desde que a outra pessoa morreu também é comum, assim como a dificuldade em perseguir interesses ou em fazer planos para o futuro desde a morte do ente querido”, constatando que “estas características estão presentes quando passamos por uma situação de luto, mas apenas temporariamente ou com uma intensidade que se vai reduzindo ao longo do tempo”.
Um dos pontos focados por Daniel Guerra foi que “há algumas características semelhantes entre uma perturbação depressiva e uma situação de luto patológico, mas há diferenças importantes”, exemplificando que “enquanto na depressão há uma grande predominância de pensamentos negativos em relação ao próprio, no luto há uma predominância de pensamentos e imagens ligados à pessoa que morreu e, mesmo quando existe culpa excessiva, essa culpa é dirigida à pessoa que morreu”.
Resumiu que “apesar de a morte de alguém poder servir como precipitante para uma depressão, as características são diferentes e o tipo de intervenção que é feita também será diferente”.
Relativamente às formas de ultrapassar uma situação de luto complicado, o psicólogo apontou que “um dos fatores que mantém o sofrimento associado ao luto é o evitamento das emoções dolorosas que surgiram depois da morte, portanto pode ser muito útil encontrar alguém com quem partilhar essas emoções, que permita reduzir a solidão que se sente quando se perde alguém”.
Recordou ainda que “também é importante contrariar a ideia de que a vida não tem sentido depois da morte da outra pessoa, pelo que regressar gradualmente à vida quotidiana é outra estratégia importante a considerar quando se recupera de uma perda”.
Daniel Guerra frisou também que “é importante ‘aceitar’ que a outra pessoa morreu e não voltará a estar connosco, que a perda é dolorosa e inevitável durante algum tempo e que a minha vida não terminou com a morte daquela pessoa”.
Para além disso, “pode ser também importante admitir que não se é capaz de lidar com o sofrimento sozinho e, nesse sentido, é fundamental procurar ajudar especializada para lidar com a perda”, concluiu o psicólogo.

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